sexta-feira, 4 de julho de 2014

Conexão: Mês da nação forrozeira

Por: Anax Botelho/ Agenda Cultural do Recife

Na mesma efervescência da copa, o mês de junho pinta de verde e amarelo a intensa paixão e manifestação da identidade da região Nordeste: a festa de São João. Intimamente presente na cultura do Recife, o mês de junho está para a festa junina, como fevereiro (e março) está para o Carnaval e dezembro para o Natal. Pessoas de todas as regiões voltam sua atenção para o Nordeste para conhecer e matar a saudade da comida típica, dos foguetórios, das quadrilhas e de um dos protagonistas: o forró. 

Acompanhando a festa do Nordeste, Junho de 2014 entra na história de Pernambuco e do Recife. Após 64 anos, o Brasil volta a sediar uma Copa do Mundo de Futebol. Na última oportunidade, em 1950, a capital pernambucana foi umas das anfitriãs do maior evento esportivo do Mundo, com jogos realizados no Estádio Adelmar da Costa Carvalho, conhecido pelo torcedor como Ilha do Retiro. Este ano, o espetáculo muda de endereço, será na Arena Pernambuco, em São Lourenço da Mata, município da Região Metropolitana do Recife (RMR) mas o frisson do Mundial paira sobre a Veneza brasileira. Agora com um novo palco, a Cidade se prepara para escrever mais um capítulo dessa paixão universal, o futebol. 

Ritmo típico da região, o forró é tradicionalmente tocado por sanfoneiro, zabumbeiro e triângulo, o conhecido trio do pé de serra. Com o passar dos anos, o estilo começou a contar com inúmeras variações e com novos subgêneros. O forró popularizou-se por todo o País na década de 1950 graças a Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, e se tornou uma bandeira de resistência e identidade cultural da Região Nordeste. Foi Luiz Gonzaga quem melhor expressou, em suas palavras, a emoção do São João. Escrevendo sobre a noite com seus balões no ar, o xote, o baião no salão, ele, ao lado de nomes como Jackson do Pandeiro e a primeira geração do Trio Nordestino, inspira os forrozeiros até hoje. É com esse espírito que a fogueira continua queimando em homenagem a São João. O forró já começou e o Recife rapapé no salão. 

O São João, festa que reúne as maiores características da cultura popular do Nordeste, não se comporta como proprietário do forró. Junto de iniciativas de forrozeiros e apaixonados pelo estilo, o ritmo é presente no Recife de forma independente e popular durante todo o ano. Para o forró não perder o compasso, a música conta com o trabalho de um apaixonado pela cultura nordestina, o divulgador Iram Ferreira, da IF Divulgações - Cultura é vida. Desde 2005 com a produtora, Iram começou o seu trabalho ainda de forma amadora, utilizando apenas o seu nome. E tudo isso por causa do amor que sente pelo forró. Seu trabalho é centrado em um pacote de mídia, que inclui panfletagem, assessoria de imprensa, divulgação, produção e marcação de shows. Atualmente trabalhando com a nova geração do Trio Nordestino, Genival Lacerda, João Lacerda e Manoelzinho do Acordeon, Iram já fez a divulgação de mais de 20 artistas locais. Com uma forte personalidade, o divulgador cultural tem o forró entrelaçado com sua história de vida. Quando criança, sua mãe cantava para ele e Iram mantém o costume de ouvir músicas de Luiz Gonzaga todos os dias antes de dormir. “Eu sou louco por forró. Almoço e janto ele”, afirma emocionado. 

Para dançar, para realizar a noite de São João, a música é fundamental. E fundamental para o forró, são seus compositores e intérpretes que diariamente produzem melodias e letras contando histórias de paixões e da vida no Nordeste. O cantor e compositor Texeira de Paula, com 45 anos de dedicação à composição de letras de forró, além de outros estilos, não perde o estímulo. Para ele, o fato de ser nordestino já é meio caminho para trabalhar com o forró nas suas letras e melodias. “A música é inspiração para a vida”, diz Teixeira, e completar dizendo que sua principal fonte de inspiração é a região Nordeste e o Rei, como chama, Luiz Gonzaga. Com álbuns gravados, Teixeira diz que ainda tem muito que compor e destaca nomes como os de Beto Hortis, Genaro, Marcelo de Feira Nova, Cezinha, Mahatma, entre outros, como seus ídolos do gênero na atualidade. 

No último estágio de comunicação do forró com o público, as apresentações, os músicos são os responsáveis por animar a nação nordestina. Roberto Silva, 40 anos como compositor e três como cantor profissional, é um dos embaixadores dessa paixão. Na luta pela cultura diariamente, Roberto afirma que a música nasce com você e não tem hora para vivê-la. “No São João e fora, a poesia é a mesma”, diz. Com dois álbuns gravados, o cantor acredita que o forró seja a voz do Nordeste para o resto do Brasil, e não mede elogios ao Rei do Baião. “Foi por causa da coragem de Luiz Gonzaga que estamos aqui hoje. Ele foi o precursor”, afirma. No São João, o qual classifica como a copa do forró, Roberto estará presente do Litoral ao Sertão, levando sua poesia por todo o Estado. 

Um dos destaques dessa cena, além da sua elogiadíssima execução musical, é o sanfoneiro, professor, cantor e compositor Manoelzinho do Acordeon. Com 20 anos de carreira, quatro como artista solo, já possui três álbuns. Manoelzinho também já trabalhou com nomes consagrados como Jorge de Altinho, Geraldinho Lins, entre outros. Agora se aventurando em carreira solo, o artista não nega sua ansiedade com a proximidade do período junino. A vontade de tocar é a mola condutora do forrozeiro, que tem, entre seus planos, gravar um DVD em 2015, com a presença de artistas convidados. Para além da celebração nordestina, Manoelzinho do Acordeon tem um projeto fixo no restaurante de comida regional, Parraxaxá, no bairro de Boa Viagem. Ele se apresenta em companhia de Cirlene Menezes todos os sábados a partir das 19h30. 

Na retaguarda desse movimento, o cantor e radialista Ivan Ferraz, que foi homenageado do São João do Recife em 2001, não mede esforços para que o forró faça parte da rotina dos recifenses. Com nove LPs e 10 CDs gravados, Ivan comanda, desde 2000, o programa Forró, Verso e Viola na Rádio Universitária FM 99,9, de segunda a sexta-feira das 16h às 18h. 

Com uma extensa carreira na música, registrada por gravadoras nacionais e internacionais, o radialista começou sua história na comunicação em 1981 na Rádio Capibaribe. Desde o começo, Ivan mantém a tradição de levar nomes conhecidos do público e novos artistas, com o objetivo de fortalecer e apresentar os iniciantes da música nordestina. “Sempre gostei de pesquisar e estudar a origem do forró”, diz Ivan, ao lembrar o programa que comandou na televisão por seis anos, na emissora estatal TV Tropical, hoje TV Pernambuco. Com uma visível preocupação com a cultura nordestina, segundo ele, devia haver mais espaços destinados à música, pois, artistas, a Cidade já tem para conduzir a festa. “Dar valor a quem está começando... Precisamos aumentar a quantidade de nomes novos”, apela Ivan, que faz questão de afirmar que o Recife é um das poucas cidades que preserva o autêntico forró. 

Iniciativas como a do radialista Ivan, criador e coordenador do Espaço Cultural Dominguinhos, realizado todo sábado a partir das 14h no Clube da Sudene, no bairro do Engenho do Meio, vem ocupando espaços públicos e privados para sustentar a paixão nordestina, ao longo dos anos, para além do São João. O espaço inaugurado em 2012, que contou com a presença do próprio Dominguinhos, um dos maiores divulgadores da cultura nordestina, falecido em 2013, tem a mesma proposta do programa de rádio do seu idealizador: levar nomes conhecidos e iniciantes para todo o público. No Recife, outro local que se destaca na apresentação do forró, é a Sala de Reboco, no bairro do Cordeiro. “Uma das melhores casas de forró do Brasil, o Sala de Reboco Bar & Comedoria é um lugar dedicado exclusivamente ao autêntico forró pé de serra. Inaugurado em 1999, possui um público fiel e de qualidade, atraído pela boa música executada ao vivo pelos maiores forrozeiros do país, que compõem e interpretam”, como define em seu site oficial o espaço. Entre os outros destinos da nação forrozeira, está a Casa da Rabeca do Brasil, no município de Olinda, pertencente à RMR. Fundada em 2002, tem como objetivos a preservação da cultura e a tradição da região. Além dessas, tem também a Casa do Forró, no bairro do Pina. 

É Junho. Dentro das quatro linhas, o Brasil luta pelo hexacampeonato mundial de futebol. Já as noites, são noites brasileiras. Meninos brincando de roda, velhos soltando balão, moços ao redor da fogueira brincando com o coração. Eita! É o São João dos sonhos de Luiz Gonzaga! O São João do Recife continua lutando pela autenticidade e valorizando a cultura nordestina. Bairros festejam em palhoças, a fumaça das fogueiras tomam conta da rua e o forró, este, tem o seu momento de apoteose. Com bandeirinhas verdes e amarelas, cantando o Nordeste e São João com a bola no pé, começa a Copa do Mundo do Forró.

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