Senhor Barriga

Com sua barriga tachada por muitos como "indecente", sua dança desengonçada e músicas tão divertidas quanto sacanas, esse paraibano de 81 anos conquistou o Brasil
Elaborar uma edição inteira de uma revista dedicada à “barriga” tem sido algo muito mais interessante e divertido do que imaginávamos na reunião em que o tema surgiu. As histórias, mitos, significados e personagens que vão se descortinando conforme mergulhamos nesse pantagruélico tema são tão diversos e poliformes quanto as próprias barrigas, panças, abdomens, tanquinhos e frigobares que desfilam impávidos pela superfície terrestre. Um pedaço de nós capaz de conter e expressar emoções, a energia vital, os excessos e faltas... uma bela e misteriosa metáfora para a vida. Há pouco consenso ou figuras que funcionem como denominadores comuns quando se pensa no assunto. A mais unânime das unanimidades brasileiras, porém, que ocupa o consciente e o inconsciente coletivos brasileiros e surge como uma flecha diante da mais remota menção à palavra barriga por aqui, é ninguém menos do que o paraibano Genival Lacerda. O ex-calouro do programa Silvio Santos, hoje espécie de sex symbol do avesso, está firme e forte. Do alto de seus 81 anos e em volta dos 118 quilos que ostenta hoje, o autor do maravilhoso e inesquecível refrão “Ele tá de olho é na butique dela”, de seu grande sucesso “Severina Xique-Xique” diz que ainda é capaz de reproduzir sua marca registrada sem maiores dificuldades ou tropeços: a dança erótico-desengonçada que ajudou a torná-lo uma das mais carismáticas figuras da música nordestina e brasileira. Sempre, claro, com sua coreografia no melhor estilo Chacrinha: balançando a pança.

Além da foto em que ostenta seu figurino meio Elvis meio Lampião em momento apache, brindamos os leitores da coluna com uma entrevista dada ao repórter da “Trip” Pedro Henrique Araújo em que Genival explica seus hábitos alimentares, resgata o início da carreira e revela seus “segredos de beleza”...

Quando a barriga virou um personagem em seus shows?
Em 1975, fui fazer o programa do Silvio Santos. Na hora de entrar, ele disse ao produtor: “Avise ao rapazinho que não dá pra ele vir porque estamos atrasados 12 minutos.” O produtor, que me conhecia, respondeu: “Olhe, esse rapazinho é Genival Lacerda, um showman. Ele é o primeiro sem segundo no estilo dele.” Aí eu entrei. Cantei “Severina”, “A Filha de Mané Bento” e comecei a fazer aquela dança com a barriga. Eu não tava tão gordo naquele tempo, mas é como o palhaço de circo. O palhaço vai contando anedota. Se o público gosta, ele continua contando, aí mais na frente ele conta de novo. Eu dei continuidade até hoje.

Como você cultiva a forma física?
É só não fazer regime, que é a coisa pior do mundo. Meu filho João Lacerda diz que eu preciso ficar malfeito e cultivar a barriga até quando eu parar de cantar.

O que você come normalmente?
Como o que eu gosto. Feijão, cuscuz, arroz, galinha, torrada, pão, queijo de coalho, manteiga de gado. Tudo menos o que acoste o colesterol, porque, se acostar, João não gosta. Tomo cuidado com o colesterol e a glicose, só isso.

Você pensa em emagrecer?
Isso (a barriga) não acaba mais, não, porque já virou um calo sexual. Todo mundo me conhece como “o homem da barriga sexy”.

É a barriga com mais história do Brasil?
É uma história grande. São quase 62 anos de carreira e 49 LPs gravados. Graças a Deus, sou um ícone da música nordestina. Para contar, estou preparando um livro, mas isso é mais devagar. Desde quando eu comecei em Campina Grande até hoje.


Paulo Lima
Paulo Lima é fundador da editora e da revista Trip

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