O meio século de estrada de Assisão

Forrozeiro de Serra Talhada começou na Rozenblit
Assisão completou este ano anos 70 anos de idade, e 50 carreira, contados do primeiro compacto gravado na Rozenblit, em 1962, com quatro músicas de sua autoria: “Naquele tempo não era fácil gravar. Fiz este compacto, voltei para minha cidade. Continuei cantando carnaval, baile. Participei de um grupo, o Azes do Baião. Compunha e mandava para as gravadoras”, conta o cantor, que está lançado DVD e CD para marcar as datas redondas: 50 anos de forró - Assisão ao vivo, registro de um show em Rio Formoso (PE).

A relação de nomes que o gravaram é extensa. Sua fama como compositor antecedeu a de cantor. Em 1975, o Trio Nordestino emplacou dois grandes sucessos com Forró pesado e Esquenta moreninha, de Assisão. O que levou os concorrentes dos Três do Nordeste e recorrer ao talento do pernambucano no ano seguinte. No LP Forró pra juventude, de 1976, cinco das 13 faixas são assinadas por Assisão. Até aí a censura não o incomodava. Isto porque não sabia ler nas entrelinhas: “Esquenta moreninha é uma relação de um casal que se encontra num forró”, entrega Assisão, cantarolando os versos: “Curtir uma ressaca no seu colo estou seguro/Sem contar com os beijinhos no cantinho/atrás do muro/tem boi na linha/tem, tem, tem”. Eles não entenderam. Mas outras são mais clara, como Pescador que diz: Maria vamos pescar, na beira da lagoa, tu leva teu jequi, eu levo minhoca da boa. O Jequi é um cesto pra botar peixe. Mas a culpa disto tudo é da língua portuguesa. Por exemplo, tem a manga de camisa, e tem a manga de chupar. Vai depender da interpretação. Agora estas bandas de agora estão fazendo bem pior, e nem é forró. Sei que me copiaram muito. Mas tem uma coisa boa nas bandas. Elas cobram caro, e a gente tem a deixa para comparar os cachês e pedir alto também”, comenta o forrozeiro, que trafega pelas estradas do Nordeste em um ônibus confortável, com uma equipe de 13 pessoas.

Entre o compacto duplo na Rozenblit e o primeiro LP se passaram 15 anos. Sua fama como compositor levou a extinta Beverly a lançá-lo nacionalmente no álbum faz e diz, um disco todo autoral: “Acho que demorou também porque nunca morei no Rio ou São Paulo. Até hoje é indo e voltando”. Este vai e volta não foi empecilho para que ele tivesse discos lançados elas maiores gravadoras do país: RCA e EMI e as extintas Copacabana, Chantecler, Continental: “Até agora foram 48 discos. Com o recorde de 300 mil de Pau nas coisas. Só pequenininha tem mais e 250 regravações, de Elba, Trio Virgolino, Frank Aguiar, e por aí vai. Tenho umas 700 músicas, tudo feito sozinho. De vez em quando a gente dá umas parcerias. Quando estrela guia, que Fagner gravou, passou a tocar muito no exterior, Pedro Cruz, da RCA, pediu pra botar o nome dele. Argumentou que com o nome dele, era mais fácil o dinheiro chegar pra gente”.

Pouca gente sabe que o adolescente Assisão pensava em ser médico. O pai o mandou para o Recife estudar no Salesiano, para que ele se preparasse para o vestibular. Francisco de Assis Nogueira, no entanto, desde os onze fazia forró, e desistiu da medicina antes de entrar na faculdade: “Um dia eu vinha pela Conde da Boa Vista, ia passando um carro peguei uma carona e só fui parar em Serra Talhada”, conta Assisão, o forrozeiro indie (de independente mesmo), que desde o início da carreira nunca seguiu modas, nem se alinhou a grupos, ou associações de classe: “Eu queria saber destas associações de forrozeiros não o que eles estão fazendo agora, ou já fizeram, mas o do futuro dos forrozeiros. Quantos forrozeiros existem por aí passando fome? A lagartixa passeando por baixo das panelas da casa deles, porque não tem fogo acesso? Jackson do Pandeiro morreu lascado, e Luiz Gonzaga no fim da vida também não tinha dinheiro”, questiona, e ensaia uma frase efeito: “Do jeito que anda, o forró vai acabar. Quem fazer o forró no São João é Lady Gaga”.

Publicada em 06/11/2012 por: José Teles

Comentários