Habilidade para se superar

Depois de enfrentar problemas de saúde, Arlindo dos 8 Baixos lança DVD “Arlindo dos 8 Baixos ao Vivo”

FONTE: FOLHA DE PERNAMBUCO
Durante toda sua vida, Arlindo dos 8 Baixos esteve focado em suas mãos. Fosse no corte da cana, no engenho em Siranhaém, Mata Sul de Pernambuco, onde cresceu; nos salões de cabeleireiro no Cabo de Santo Agostinho e depois no Recife, onde trabalhou. Ou tocando sanfona e fole de 8 baixos, ofício que o consagrou. Mas foi de sua perna esquerda toda a atenção nos últimos meses. Em março, uma unha encravada que infeccionou o fez ficar internado tempo suficiente para não tocar no São João de 2012, pela primeira vez depois de 50 anos de carreira - e já com três shows agendados. Contudo, essa não foi a única perda do músico no período. A infecção, agravada pela diabetes que o acompanha há 40 anos e já havia lhe tirado a visão (a mesma que lhe possibilitou aprender sozinho a tocar, aos 10 anos de idade, quando pegava escondido o instrumento do pai e reproduzia o que observava ver outros músicos fazerem), culminou com a amputação da parte contaminada da perna e uma rotina dolorosa de repouso e curativos.

Hoje, porém, o foco se volta novamente para a habilidade de Arlindo manuseando o fole. Ele lança, a partir das 18h30, na Passadisco, o DVD “Arlindo dos 8 Baixos ao Vivo”. O trabalho é resultado de um show realizado na Fenearte de 2009, com a participação de Ronaldo Aboiador e Rouxinol do Nordeste. No DVD, mostra as várias vertentes do instrumento, indo do forró (“Buliçoso”, “Onde tu tá neném”, “Olha pro céu”, “Isso aqui tá bom demais”), ao frevo (“Vassourinhas”), passando pelo chorinho (“Brasileirinho”, “Tico-tico no fubá”) até merengues e cúmbias. “Eu fiz o espetáculo sem pretensão de lançá-lo em vídeo, mas Roberto Andrade, meu produtor, filmou sem meu conhecimento e, ao final da apresentação, entregou uma cópia ao meu filho mais velho. ‘Olha, eu fiz um registro que precisa circular’, ele disse. Meu filho guardou o material e a gente achou que esse momento de superação seria ideal para trazê-lo a público e comemorar”, conta.

A cicatrização da perna finalmente permitiu ao sanfoneiro retomar suas atividades: consertar instrumentos, dar aulas e se apresentar no famoso Forró do Arlindo, que ocorre aos domingos no quintal de sua casa. “A minha mão direita está doendo um pouco, meio entravada, mas eu venho praticando. Já a perna está bem. Daqui a cinco meses estará pronta para receber a prótese”, afirma. Mesmo diante de todas as adversidades causadas pela diabetes, a hemodiálise - obrigatória três vezes por semana -, e uma alergia que faz suas mãos coçarem e até mesmo sangrarem, Arlindo nunca pensou em parar de tocar. Foi em reverência a isso e à sua virtuosidade como músico que Roberto Andrade tentou por três vezes que a Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe) reconhecesse Arlindo como patrimônio vivo. O título ainda não foi concedido, mas parece estar bem próximo. “Não sei se foi a marca de 50 anos de carreira, mas mandaram me chamar, ligaram pedindo uns documentos”, revela o músico.

A homenagem ao cinquetenário não pára por aí. O produtor adianta que está preparando outros dois projetos para celebrar a data, além do DVD lançado hoje: uma coletânia em disco e um livro sobre a vida do pernambucano. “A ideia é lançar o álbum, que além de músicas vai conter registros de conversas com Arlindo, no dia 13 de dezembro, centenário de Luiz Gonzaga. O livro está programado para abril do ano que vem, vai se chamar ‘O artesão do forró’ e está sendo escrito por Jaques Cerqueira”, diz. Arlindo vai, ainda, receber uma medalha na festa para Gonzação realizada em Exú, no final do ano. Nada mais justo, levando-se em consideração a parceria dos dois sanfoneiros. “Foi Gonzaga o responsável pelo lançamento do meu primeiro disco e também foi ele que me deu esse apelido. A gente tocou junto durante anos, em turnês pelo País inteiro. Éramos bons amigos”, lembra o rei dos 8 baixos.

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