Universalidade da obra de Luiz Gonzaga inspira mostra pop Baixio dos Doidos

Por Carolina Borba


Exposição multimídia disposta em contêineres ocupará a Vila do Forró do São João de Caruaru
No centenário de nascimento de Luiz Gonzaga, entre as diversas justas homenagens ao seu legado, o projeto Baixio dos Doidos suscita a mais sensorial e emotiva experiência de (re) encontro com sua obra. Em referência à alcunha da sua cidade-natal Exu, a mostra Baixio dos Doidos traz desde o nome um olhar peculiar, íntimo e próximo da trajetória de Gonzagão, seja da maneira de falar do seu cantinho do Araripe, da forma de entoar seus versos ou na proposta de mergulhar acusticamente naquele Lua que cada um abriga dentro de si, em sua memória resplandecente.

Com uma produção arrojada, a mostra idealizada por Lina Rosa (que também assina a curadoria) aporta no São João de Caruaru a partir de 15de junho. Instaurada na Vila do Forró como um oásis de cultura pop, exibe em oito contêineres embalsamados de som e cor o quanto a musicalidade de Luiz Gonzaga - entre referências tão vastas como jazz, valsas, polcas, boleros,blues, foxtrotes, marchas e sambas – é universal e perene.

O termo baixio designa uma depressão geográfica onde as águas do rio ficam empoçadas em época de vazante. Na cidade de Exu, banhada pelo Brígida na Chapada do Araripe, a localidade onde Luiz Gonzaga nasceu é conhecida como Baixio dos Doidos. Inspirada no lugar onde começou o centenário de Lua, no marco zero do Rei do Baião, a escolha do nome é ao mesmo tempo histórica e biográfica, mas também pop e provocativa.

Como disse certa vez Caetano Veloso, “A formação de Luiz Gonzaga é pop, uma solução que ele, imigrante, morando no Rio, tentando a vida, descobriu. Ali na transação da Rádio Nacional e das gravadoras. Ele inventou algo que funcionou. É algo pop, como os Beatles”.

No passeio cenográfico, uma ambientação delicada mas impactante transporta o público para a aura dos clássicos: ABC do Sertão, Respeita Januário, Siri Jogando Bola, Xote das Meninas, Paraíba, Samarica Parteira, Asa Branca e a Morte do Vaqueiro. Cada qual remonta a uma poética visual distinta, contando com artistas que trazem, sob novas versões estéticas, um frescor ao encontro com Gonzagão.

Participam do projeto nomes como Arnaldo Antunes, Rhaissa Bittar, Otto, Jorge du Peixe, Naná Vasconcelos, Dominguinhos, Renato Borghetti, Arlindo dos 8 Baixos, além de acordeonistas internacionais, em arranjos inovadores com a direção musical de Carlinhos Borges. Helder Ferrer é o responsável pelas fotografias e a direção de produção é de Gracinha Melo.

Em cada uma das oito caixas mágicas, verdadeiros tesouros reinventados, vão se descortinando diante de olhos e ouvidos o lado B de Luiz, além das alegorias regionais de Luiz Gonzaga em recortes e releituras da sua obra. Numa criteriosa seleção de relicários de sua discografia, a mostra apresenta instalações criativas a partir de canções emblemáticas.

Cada música recebe abordagens e tratamentos sonoplásticos adequados para a instalação conceitual e sinestésica. A montagem trará ensaios fotográficos, intervenções cenográficas e intercâmbio de linguagens inspirados nas letras e nos ritmos gonzaguianos. De modo inusitado, Baixio dos Doidos proporciona novas interpretações sobre a obra, estimulando a imaginação e a sensibilidade do observador.

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