Banda de pífano de Arcoverde, PE, luta para preservar tradição

Por: Katherine Coutinho


Grupo Santa Luzia tem aproximadamente 70 anos de existência. Costume é passado de pai para filho na banda, que já está na 4ª geração
Uma tradição que passa de pai para filho e já está indo para a quarta geração. A banda de pífano Santa Luzia, da cidade de Arcoverde, no Sertão de Pernambuco, tem aproximadamente 70 anos de existência e luta para preservar a tradição iniciada nas festas dos santos das igrejas da cidade. Durante os festejos juninos na cidade, o grupo se apresenta todos os dias na Vila Olho D'água, tocando durante quase três horas músicas nordestinas, de poetas famosos e desconhecidos.

Durante o dia, Carlos André Batista de Santanna é pedreiro. Nos dias de festa, ele cuida do legado que o pai, Romão Batista de Santanna, o 'padin Batista', deixou para ele. "Quando vivo, meu pai queria que eu lutasse pelo 'pife', me dedicasse a banda, mas eu era moleque, não queria saber disso. Há seis anos ele morreu e eu percebi que precisava cuidar mesmo. É preciso cuidar do costume, da tradição", defende Carlos André.

A estrutura do grupo é simples. O pífano é feito pelos tocadores, um cano com furos do qual eles tiram o som. Pratos, zabumba e caixa acompanham os dois pífanos, marca da manifestação cultural. José Cesário da Silva, o Zé do Pifo, está há tantos anos na Santa Luzia que nem lembra mais quando entrou, só se lembra que começou com o falecido Romão. "Se eu parar, acho que morro. Isso aqui é a minha vida", se declara Zé do Pifo.

Conhecido como o delegado do pífano, José Batista de Santanna toca o instrumento junto a Zé desde que tinha 12 anos de idade. Aos 53 anos, vê a filha Carla Cristina, de 24 anos, assumir o posto dos pratos e defender a tradição da família. "Ela que quis entrar, eu não tive muito o que fazer", conta José. "Eu entrei com 11 anos. Sempre gostei do som, da batida", explica Carla, que integra a quarta geração da família Batista de Santanna na banda.

Nomes ilustres da cultura arcoverdense, como Lula Calixto, fundador do Coco Raízes de Arcoverde, já passaram pela Santa Luzia, mas para Carlos André, ao contrário do coco, que veio sendo valorizado, o pífano veio perdendo seu valor. "Essa é uma cultura que vem de longe, mexe com os sentimentos das pessoas. Começou com os santos, qualquer pessoa antiga sabe que festa de santo é com 'pife'. Festa de rua é uma coisa, de santo é outra. Nos sítios eles ainda valorizam a gente, quando chegamos pra tocar, desligam o rádio, entra todo mundo na dança. Aqui na cidade, ninguém liga muito", desabafa Carlos.

Nascido em Arcoverde e sertanejo assumido, Manoel Ferreira Neto é um dos admiradores das bandas de pífano, em especial da Santa Luzia. "Eles que animam a novena, desde a época do meu avô. Quando tinha casamento, eram três dias e três noites de festa com pífano tocando. A festa era assim mesmo. No São João, eles e as bandas pé-de-serra faziam a alegria do povo", recorda Manoel.

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